Janeiro - Chapter 1

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Janeiro

by kumiho

Libraries: One Shots, Original Fiction, Philosophical, Song Fic

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Ela era uma menina de janeiro. pt-BR. [Black-Dove by Tori Amos.]

 

O concerto caótico de buzinas e palavreados e luzes piscantes era um espetáculo à parte, quase impossivelmente enfiado por todos os lados e cantos imagináveis do drive-thru – e a imaginação de Amélia era bastante abrangente e flexível em termos de propriedades físicas do espaço.

Impassível como de costume, o sorriso padronizado convenientemente congelado no rosto, ela teclava na tela do computador engordurado os pedidos eventuais de homens carecas, gordos e feios, saídos famintos e irritadiços das horas extras no escritório. Um número três, batata média, guaraná grande, computou, automática; dado o horário ingrato do turno da madrugada e o pagamento pífio, trabalhar ali equivalia perfeitamente a se postar na esquina com roupas curtas e fazer gestos significativos com uma bolsa de mão, pensou vagamente, fitando estupidamente a linda foto de um hambúrguer. E, com uma certa inveja indiferente, constatou que provavelmente ganharia menos e com menos prazer que na lanchonete, já que aqueles mesmos clientes carecas, gordos e velhos dificilmente pagariam por sua companhia; afinal, esperavam gastar dinheiro com moças bonitas e agradáveis, o que não se podia falar dela. Não que Amélia fosse particularmente feia, ou qualquer coisa em particular, de fato; talvez um pouco magra demais, sim, e um pouco sardenta demais, e um pouco ortodonticamente aparelhada demais. Mas não, assim, feia – como diriam as velhas vizinhas, condescendentemente, embora todas elas concordassem que sua presença não era exatamente agradável.

O computador acusou o final do turno, e ela fechou o caixa com a costumeira, medida ineficiência; depois de se trocar e deixar para trás seu ego sorridente sem sobrenome, passou de cabeça baixa pelos tagarelas colegas e suas conversas vazias, predeterminadas por emissoras de televisão (até mais, até amanhã), e parou por fim no ponto de ônibus duas quadras abaixo. Como que cuidadosamente cronometrado, ele chegou logo, quase vazio, barulhento: um monstro resfolegante de entranhas luminosas. O motorista fechou a porta automática atrás dela, sem encará-la, sem mal notá-la; o cobrador entregou o troco, mecanicamente, mais atento à cidade silenciosa através da janela. Era a hora morta, e as ruas estavam vazias – de pessoas, de luzes, mesmo de vento. Amélia pegou-se imaginando como seria uma hora viva, se ela existisse; mesmo no restante do dia, a cidade sempre tinha aquela aura cinzenta, demasiado estável, feito uma estátua de pedra ou um bloco de concreto.

Eram passados bons três quartos de hora quando o carro chegou ao ponto certo, um poste de madeira fincado no chão, do qual a cor fora lavada pelas chuvas e fustigada pelo sol muito tempo atrás. Puxou a cordinha, comprazendo-se brevemente no apito agudo (uma violação da natureza daquela hora, lhe parecia, e lhe lembrava a primeira nota de uma música da qual um dia gostara), e saltou sem olhar para trás. Recebeu com gosto o ar frio da madrugada no rosto e nas mãos, e ampliou a sensação ainda mais, caminhando apressadamente com passos leves, quase correndo em direção ao prédio acinzentado no outro quarteirão. Sacou as chaves, que tilintaram como pequenos sinos, e abriu o portão semienferrujado, coberto de restos de papel; dobrou à direita para alcançar as escadas, já escuras àquela altura da madrugada, e galgou os degraus de dois em dois, assobiando internamente pedaços de cantigas de infância.

Quinto andar, segunda porta à esquerda, cantarolou por dentro numa rima desconexa, e enfiou a chave na fechadura. Lá dentro, a casa respondeu ao clique da tranca com uma sinfonia de cores, cheiros, sons: a luz alaranjada da rua, entrando pelas cortinas puxadas, lembrava um crepúsculo à beira-mar, e mesmo o ar parecia cheio de sal e canto de gaivotas. Ela deixou as chaves mágicas – cada uma pertencente ao tesouro de um dragão – sobre a mesinha, num tilintar de prata e gelo; e dançou uma dança leve de fadas e princesas sobre o tapete verde e infinito, os talos de relva tão macios, tão frescos, roçando suas pernas nuas até o joelho, onde começava a saia rodada de seda e renda. Além dos prados, erguia-se a floresta, e a fera espreitava para levá-la à grande nave que a levaria para ver as estrelas de perto, e o outro lado da galáxia – mas isso seria depois, bem depois, quando ela estivesse pronta.

Era já tarde na manhã quando acordou, um gosto estranho na boca, o cheiro rançoso e úmido de louça por lavar pairando no ar. Levantou-se, um dos pés ainda calçado, caçou o outro pé sob a cama, pegou a garrafa caída no chão. Pelas cortinas entreabertas vazava um pouco de sol; era quente, quase agradável, e Amélia se demorou ali um pouco, sentada na cama, a mente vazia. Tinha uma vaga sensação de que deveria ter algum desejo, alguma vontade, alguma urgência de agir; mas não à toa a inércia era justo a primeira lei de Newton. Havia um certo sentido.

A custo ergueu-se e rumou a passos lentos para o banheiro adjacente; ignorou solenemente o estado do piso e das paredes, e tomou a escova de dentes. O espelho diante da pia havia se decomposto em pequenos cacos brilhantes havia muito tempo – Amélia tinha uma longa lista de pecados, é verdade, mas vaidade não figurava entre eles. Terminou de escovar os dentes, lavou distraidamente o rosto, e caminhou até a sala. O papel de parede descolorido, soltando-se em grandes rolos, parecia abrir um esgar distorcido, paródia monstruosa de sorriso, em conjunção com o estofado rasgado e gasto do sofá, como um grande rosto velho, enrugado, desdentado.

Outras moças de sua idade passeavam lá embaixo, na rua diante do condomínio, e suas vozes lembravam vagamente o canto de passarinhos, como Amélia havia ouvido numa tarde longínqua na casa de seu avô. A lembrança tinha um sabor de laranjas, um cheiro bom de bolos e perfume barato, e a visão de rostos queridos; e ela se flagrou pedindo a Deus que sua família estivesse bem, onde quer que tivesse ido parar depois do barranco, dos gritos, e do rio. O carro havia feito uma manobra maravilhosa – três capotagens em seqüência, um mergulho no rio – que, no momento, ela achara tão fascinante, apesar do terror.

Piscou.

Sempre conseguia imaginar histórias por trás das coisas, enxergar cores onde não havia, imbuir qualquer objeto ou pessoa de graça e encanto. Se por fora era mais cinzenta que o asfalto esburacado, por dentro havia um mundo de mágicas e maravilhas secretas.

Mas, diante dos corpos estendidos em macas metálicas, bizarras imitações geladas e brancas de mamãe e papai etiquetadas como bonecos numa prateleira, Amélia fora incapaz de encontrar maravilhas escondidas; a dor fora tão grande que nublara seus sentidos, e ela não saberia dizer se estava chorando ou gritando – e, de repente, até mesmo por que. E até hoje não havia redescoberto.

O vento mudou de direção, entrando agora pelo pseudo-quintal, e o cheiro azedo da cozinha voltou a incomodar. Amélia inclinou a cabeça para o lado, os lábios entreabertos, não-pensativa. Novamente aquela vaga sensação de urgência, tão incômoda, cada vez mais. Sabia que deveria sair com falsas amigas, passear, fazer compras, cuidar da casa, conversar com os vizinhos sobre assuntos convenientemente inócuos; sabia que deveria fazer tudo aquilo que todos os outros faziam. Mas não tinha mais ninguém a quem agradar, ninguém a quem se explicar, e o mundo lhe parecia bom o suficiente como estava, obrigada.

Piscou.

O gosto ainda perdurava: doce, cítrico, com um gosto de fruta roubada e o chupar de bagaços nos galhos das mangueiras. A brisa carregada de rio, grama, fubá e leite fresco; o sol quente, dourado, tão delicioso quando impiedoso; as nuvens como grandes chumaços de algodão-doce –

No apartamento vizinho, um piano, uma voz como um sopro de vento –

– ela era uma menina de Janeiro, dizia ela, e Amélia riu, e seu semblante se iluminou. Sim, seu vestido era o azul, aquele que ela uma vez dera a outra princesa de um reino distante, mas era ele mesmo; seus pés descalços sentiam a relva macia nas pontas dos dedos, e ela levantou-se do coche de veludo e cetim. Ao longe, na floresta, as luzes dos elfos eram como um farol suave, qual pequenos sóis ou estrelas postas entre as árvores. Deixou então a casa pequena, sombreada e fresca: como deveriam ser as grutas escondidas sob a terra, onde jóias mais antigas que o mundo contavam histórias preciosas. E dançou, e correu, e flutuou sobre as planícies.

Aqui e ali, as velhas vizinhas faziam entre si comentários pouco lisonjeiros, e mencionavam quartos feitos de almofadas brancas e camisas brancas de longas mangas e poções malignas para destruir sua magia. Mas Amélia não se importava com bruxas, e lhes sorria e fazia mesuras elegantes – como toda digna donzela, é claro; mesmo que elas resmungassem ainda mais, recolhendo-se novamente a seus casebres bruxescos.

O chamado: ah, ele vinha, e mais forte a cada dia. A fera aguardava, paciente, e além das árvores a nave estava preparada, e o metal vindo de outros mundos brilhava estranhamente –

– mas o ônibus roncou e arrancou, deixando para trás uma nuvem quente que a fez engasgar e tossir, e as moças no ponto riram suas risadinhas pretensiosas, no alto de seus saltos finos, os coques lustrosos. Era um calor tão diferente do aconchego de sua cama, de um colo, mesmo o toque do sol; era algo quente apesar de morto ou morto apesar de quente?, argumentou consigo para isolar os olhares desdenhosos, apertando os lábios e apressando o passo de volta à relativa segurança de atrás do portão. Subiu novamente as escadas, sentindo os degraus de concreto gasto machucarem seus pés nus, e passou tão rápido quanto pôde pelas velhas que se reuniam junto às portas, murmurando coisas desagradáveis com suas vozes grasnidas.

Bateu a porta atrás de si, sentindo a garganta se apertar numa reação estranha, há bastante esquecida; afinal, mesmo que tivesse se consolado com mentiras e as tornado enfim suas verdades, nunca conseguira superar o escárnio, o desprezo; pareciam varar suas realidades como setas contra papel. Escorregou pela parede, o desespero correndo morno pelo rosto, espalhando-se pelas mangas conforme se encolhia, o corpo todo sacudido pelos soluços. Tentou, em vão, ver que as lágrimas eram em verdade pérolas raras, e sentir o toque do sopro da primavera nos cabelos; mas laranjas, mangueiras e perfumes genéricos teimavam em lhe passar pelas lembranças, como fotos desbotadas de um passado tão distante que mal ainda existia – zombando, apontando, rindo-se, indo embora.

Piscou; lágrimas escorreram; e ela viu claramente, como se tivessem lavado seus olhos e posto diante deles um filme de quase sépia.

Ela fora inocente. Como poderia saber? O carro, grande, vermelho, era como um grande parque de diversões; tantas alavancas, tantos botões, qual os controles coloridos de uma nave espacial daquelas que via no cinema, e ela sonhava em ser a capitã de uma delas. Seu irmão seria o piloto, disse, e riu.

Fora a última risada que compartilharam desde então.

Amélia afundou o rosto nos braços, e chorou.

Oh, pomba negra, pomba negra–

– Mas as luzes eram então tão coloridas, brilhantes – de perto eram como grandes fogos, pensou ela, a mão dada à da fera, pisando atrás dela as folhas macias e quebradiças do chão da mata. Grandes laranjas suculentas, maduras, redondas, pendiam dos galhos grossos e convidativos; aqui e ali flores violentamente cor-de-rosa, as pétalas finas e desfiadas como se feitas de chita, exalavam perfumes pouco florais. A clareira se aproximava, e o sol dourado se infiltrava pelas copas verdes, perfeitas em sua irregularidade cuidadosamente planejada; o cetim azul do vestido farfalhava com a brisa fresca, primaveril.

A ponte da nave baixou até o chão gramado, suave, silenciosa, como em toda boa nave; e Amélia beijou o rosto da fera – que um dia seria um príncipe, disse com um último sussurro – e subiu. Os degraus eram frios, lisos, de uma qualidade estranha e íngreme; mas eram gentis com os pés descobertos, e a ascensão foi fácil. Igualmente fácil foi a viagem, rápida, suave, sem trepidações ou turbulências; e logo ela viu pela escotilha a grande estrela se aproximando, de cores mais vívidas até do que se poderia imaginar – e a imaginação de Amélia era bastante abrangente e flexível em termos de possibilidades de divisão da luz.

Lá, eles esperavam, sorridentes, os braços abertos: a cama estava feita, o almoço posto, e ela era a última a finalmente chegar, disse a mãe, envolvendo-a num abraço confortavelmente quente. Caloroso, enfim.

Eles não sabem que você já vivia / do outro lado da galáxia –

– O ônibus freou subitamente, cantando os pneus; os carros atrás dele, em fila única na rua estreita, frearam também, e uma saraivada de buzinas e impropérios feriu a senão plácida tarde de Janeiro.

Leve surpresa no rosto, num ângulo impossível – ou não – junto à sarjeta, Amélia sorria ainda.

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